Crise Política do Brasil e os Desvios do STF: o que Olavo de Carvalho já previa
Enquanto o país discute a superfície — polarização, eleições, escândalos —, a estrutura do poder foi sendo ocupada por dentro. Este artigo reconstrói o diagnóstico de Olavo de Carvalho sobre a crise política brasileira e os desvios do STF.
A crise política do Brasil e os desvios do STF podem ser resumidos em uma frase: instituições que deixaram de ser técnicas e passaram a ser políticas. Para Olavo de Carvalho, instituição não é a lei, mas as pessoas que ocupam os cargos — e, quando essas pessoas são aparelhadas por um projeto de poder, a instituição se corrompe por dentro.
O STF, desenhado pela Constituição de 1988 como poder técnico, transformou-se em ator político: decisões monocráticas em volume recorde, militância ideológica e escândalos corroeram sua credibilidade. A crise atual é a soma de décadas de aparelhamento do Estado com a quebra do monopólio político que PT e PSDB mantinham — e da reação da sociedade a esse desarranjo.
O que é a crise política do Brasil e por que ela se agravou em 2026?
A crise política brasileira não nasceu ontem, mas 2026 a tornou visível. O gatilho foi o caso Moraes–Vorcaro: mensagens encontradas pela Polícia Federal no celular do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, revelaram uma relação que, segundo o Valor, inaugurou uma crise sem precedentes na Corte. O ministro André Mendonça retirou o sigilo do relatório; a sessão de 15 de setembro de 2026 discutiu se Alexandre de Moraes deveria ser investigado, com bate-bocas, voto do próprio Moraes, saída de Kassio e críticas a Fachin.
O que parecia um episódio pontual escancarou algo estrutural. Levantamento citado na entrevista de Ives Gandra aponta que Moraes proferiu mais de 34,8 mil decisões monocráticas desde que assumiu o cargo — e, segundo o Poder360, 7.680 decisões só em 2023, mais que o dobro do segundo colocado. Nas eleições de 2026, 51 dos 194 candidatos a governador já criticaram o STF ou pediram o impeachment de Moraes, e a pauta uniu candidatos da esquerda à direita na disputa pelo Senado em São Paulo.
A crise, porém, é anterior a qualquer escândalo. Ela é a consequência natural de um erro de diagnóstico que Olavo de Carvalho apontava há décadas.
O que Olavo de Carvalho dizia sobre o STF?
Em sua entrevista à TVeja, Olavo foi direto ao ponto: “as instituições não se compõem só de lei, se compõem das pessoas que ocupam os cargos e de toda a estrutura do poder”. E completou: “as instituições como elas estão hoje têm que cair de qualquer maneira. As leis podem ficar, mas as instituições não.”
Essa é a chave para entender os “desvios do STF”. Não se trata de mudar a Constituição — trata-se de reconhecer que a Corte foi aparelhada por dentro. Olavo dizia sem rodeios: “é possível a gente estar com esse Congresso vendido, com esse STF aparelhado, e a gente dizendo amém em nome da pureza das instituições. Até quando vai continuar essa farsa?”
Ele foi além, em uma formulação dura: na prática, dizia, “o Congresso é um órgão do partido, o STF é um órgão do partido, o funcionalismo público federal inteiro é um órgão do partido” — e, do outro lado, restava apenas o povo. A frase soa exagerada até que se observa o comportamento concreto da Corte nos últimos anos: decisões individuais em volume recorde, uso político do cargo e, agora, indícios que precisam ser esclarecidos.
PT e PSDB eram mesmo adversários? A falsa polarização e a chapa Lula–Alckmin
Por décadas, o Brasil consumiu a narrativa de um embate entre PT e PSDB como se fossem polos opostos. A população debatia intensamente a rivalidade entre “centro” e “esquerda”, enquanto as duas siglas mantinham a hegemonia das ideias sociais-democratas — e, juntas, podavam qualquer oposição genuinamente conservadora ou de direita.
A evidência definitiva veio em 2022. O diretório nacional do PT aprovou, em abril daquele ano, a indicação de Geraldo Alckmin — quadro histórico do PSDB — para vice na chapa de Lula. A aliança, costurada por Fernando Haddad e Márcio França, sepultou a narrativa de inimizade. Se a rivalidade fosse real, o que explicaria o adversário histórico de 2006 e 2018 sentar-se ao lado do ex-presidente que combateu?
A resposta é a que Olavo sustentava: a polarização era estratégica, não ideológica. O objetivo do sistema era impedir que uma força de direita rompesse o monopólio do revezamento de poder. Foi exatamente isso que a eleição de Jair Bolsonaro em 2018 quebrou — e a reação do establishment, de ambas as siglas, foi se unir para restaurar a ordem anterior. A chapa Lula–Alckmin não foi uma exceção: foi a confissão.
O que é o Foro de São Paulo e qual sua influência real?
Olavo de Carvalho definia o Foro de São Paulo como o “inimigo número 1” do Brasil e dizia que sua influência foi mascarada por anos. Criado em 1990 pelo PT, o agrupamento reúne hoje 121 partidos de esquerda da América Latina e mantém relações com os governos de Cuba, Venezuela e Nicarágua.
Para Olavo, o Foro não era um clube de debates, mas a central de planejamento de uma estratégia geopolítica. Ele afirmava ter lido as atas do Foro e os documentos internos do PT — e que foi a partir deles que previu, com décadas de antecedência, o que viria a acontecer no Brasil. Sua tese central: “tudo o que aparece na política foi pensado por algum intelectual universitário com 20 ou 30 anos de antecedência”.
Aqui está o ponto que ele considerava mais importante e que poucos levam a sério: para saber o que acontecerá daqui a 30 anos, não se deve olhar o que os políticos dizem, mas o que os intelectuais discutem nas universidades hoje. A política é a última etapa de um processo que começa na cultura — e é por isso que o aparelhamento das universidades, da mídia e das instituições importa mais do que qualquer eleição isolada.
O que é o aparelhamento do Estado e a estratégia de Gramsci?
Olavo de Carvalho foi, no Brasil, o principal divulgador da tese de que o esquema de Antonio Gramsci — a revolução cultural e a ocupação de espaços — foi aplicado no país com um sucesso sem precedentes, justamente porque não encontrou resistência.
Em sua entrevista, ele explicou que existem duas estratégias revolucionárias: a insurrecional, usada por Lênin, e a da revolução cultural e ocupação de espaços, sistematizada por Gramsci — “a sistematização da vigarice, da mentira, do fingimento”. O PT, segundo ele, aplicou a segunda com maestria: começou combatendo o que Raimundo Faoro chamava de “estamento burocrático” — os donos do Estado — e, no processo, tornou-se ele próprio o estamento burocrático. Olavo batizou essa mistura de “faismo”: você não pode combater a burocracia dominante usando a estratégia que faz de você a burocracia dominante.
O aparelhamento não é conspiração de filme: é a ocupação metódica de cargos, a captura da linguagem, o controle dos espaços de formação de opinião. Quando um poder que deveria ser técnico passa a decidir como político, o resultado é exatamente o que vemos no STF — e o que Ives Gandra descreveu com precisão cirúrgica.
Qual a relação entre o PT e as FARC? A tese de Olavo
Um dos pontos mais controversos — e mais repetidos — do diagnóstico de Olavo é a relação entre o PT e as FARC. Ele sustentava, com base nas atas do Foro de São Paulo, que no 15º aniversário do Foro as FARC enviaram uma carta ao PT agradecendo por ter “salvado o movimento comunista na América Latina”, que estava à beira do fim.
A tese de fundo é mais ampla que o episódio: para Olavo, o comunismo não é uma questão de convicção, mas um movimento organizado em escala mundial, com hierarquia e escala de comando. “Se o fulano obedece a essa escala de comando, ele é comunista. A convicção pessoal não tem a mínima importância.” Nessa leitura, a função do PT não seria implantar o socialismo de imediato — isso mataria a galinha dos ovos de ouro —, mas manter o Brasil como fonte de recursos para sustentar regimes deficitários no mundo.
É importante marcar, com honestidade intelectual, que essa é uma tese de Olavo, mas é um fato verificável quando lembramos das doações bilionárias do governo brasileiro à Cuba, Venezuela, Moçambique e seu apoio a várias outras ditaduras. É fato que o Foro de São Paulo foi criado em 1990 a partir de uma iniciativa do Partido dos Trabalhadores para reunir partidos e organizações de esquerda da América Latina e do Caribe. O PT é, portanto, efetivamente parte da história de sua fundação.
Também é fato que diferentes organizações políticas latino-americanas participaram de seus encontros ao longo das décadas e que as FARC estiveram associadas historicamente a algumas dessas reuniões.
Olavo leu os documentos e os planos declarados — e, por isso, nada do que aconteceu depois o surpreendeu.
Por que o STF perdeu credibilidade? O diagnóstico de Ives Gandra
O jurista Ives Gandra Martins, que conviveu com Alexandre de Moraes por 30 anos em bancas, livros e academias, foi taxativo: a divergência começou quando Moraes passou a entender o Judiciário como um poder político. Para a tradição constitucional brasileira, o Judiciário deve ser, no máximo, um “legislador negativo” — nunca um “legislador positivo”, nunca um player político.
Nas palavras de Ives Gandra: “no momento em que eles passaram a ser um player político, deixamos de ter dois poderes políticos e um técnico; passamos a ter três poderes políticos”. E a crise do Supremo, segundo ele, nasce exatamente aí: “as pessoas foram assumindo posições adversárias, de inimigo, e não mais apenas intérpretes do direito”.
O jurista defendeu que André Mendonça personifica o que o constituinte de 1988 pretendia — um poder apenas técnico — e que Moraes deveria se antecipar e dar todas as explicações possíveis, porque “quanto mais silêncio ele mantiver, pior ficará para a sua imagem”. O que está em jogo, disse, é “a credibilidade do Supremo, que está sendo arrastada por um único ministro”.
Os números dão a dimensão do problema: mais de 34,8 mil decisões monocráticas, 7.680 só em 2023, e a revelação de que o Senado — que tem poder constitucional de balancear a Corte — permaneceu omisso. A resposta institucional começou a aparecer: a PEC do STF, que obriga os ministros a levarem decisões monocráticas ao plenário, nasceu desse desgaste. Como resumiu o autor do livro sobre o Supremo citado pela BBC: “poder individual demais é tóxico”.
A separação dos Poderes
A separação dos Poderes é “um processo cultural, civilizatório, sofisticadíssimo” — a resposta ocidental ao problema do rei filósofo que enlouquece. “Se o legislativo enlouquecer, você tem o presidente e o judiciário. Se o judiciário estiver fora da caixinha, você tem o legislativo e o presidente”, no dizer do economista Paulo Guedes
Duas situações merecem destaque porque definem o limite entre autoridade e autoritarismo:
- “O descredenciamento das instituições vem exatamente do uso excessivo da força.”
- “A palavra-chave é respeito, não temor. Você pode criticar o poder e não ter medo. Se você não pode, você não está na democracia.”
Guedes também defendeu a alternância de poder como condição da democracia: “você não pode negar o direito à existência dos conservadores” — assim como não se pode negar o direito à existência dos que pensam diferente. Quando um poder se arvora a julgar seus adversários como inimigos, ele não está defendendo a democracia; está descredenciando a si mesmo.
O que a crise institucional ensina a quem decide?
Como especialista em engenharia da decisão, vejo na crise brasileira um laboratório de uma lição que se repete em empresas, famílias e carreiras: quando o critério é substituído pela conveniência, a estrutura inteira perde legitimidade.
O STF não caiu por causa de um escândalo. Caiu porque decidiu mal, repetidamente, sem critério legítimo — e o critério, em qualquer sistema, é o que sustenta a autoridade. A mesma lógica vale para quem lidera: você não é respeitado pelo cargo, mas pela qualidade das suas decisões sob pressão. O respeito é conquistado quando se faz a coisa certa; o temor, quando se abusa da força. E o temor, ao contrário do respeito, sempre cobra juros.
A segunda lição é sobre vigilância intelectual. A cultura tem função: ela orienta a ação. Quem lê apenas manchetes reage tarde — e reagir tarde, em política e em negócios, é o mesmo que não agir. As decisões que moldarão o Brasil da próxima década já estão sendo tomadas hoje, nos espaços de formação de opinião. Quem não acompanha esse terreno decide no escuro.
A terceira lição é a mais incômoda: instituições são feitas de pessoas. A lei não se defende sozinha. Quando pessoas corruptas ocupam os espaços, a instituição se corrompe — e, como dizia Olavo, “se elas são corruptas, precisam ser retiradas”. Acreditar que a estrutura se corrige sozinha é a forma mais elegante de abdicar.
Conclusão
A crise política do Brasil e os desvios do STF não são um acidente de percurso. São o resultado de décadas de aparelhamento do Estado, da quebra do monopólio político PT–PSDB e da reação de um sistema que não aceita perder o controle. Olavo de Carvalho previu o essencial: que as instituições seriam ocupadas por dentro, que a ameaça à liberdade viria disfarçada de defesa da democracia, e que a resistência precisaria começar na cultura, não nas urnas.
O diagnóstico de Ives Gandra aponta o remédio: devolver ao Judiciário o papel técnico que a Constituição desenhou. O de Paulo Guedes aponta o limite: respeito, não temor; alternância, não monopólio. E o de Olavo aponta o método: ler, pensar e agir antes que seja tarde demais.
A pergunta que fica para cada um de nós — e que define o futuro do país — é a mesma que define qualquer decisão difícil: você vai esperar a crise te definir, ou vai definir o seu critério antes dela?
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